Publicado por: Paulo Fragoso | 13/01/2010

Quando cheira bem

De preferência com sol. Dá-lhe outra luminosidade, dá-lhe aquela aura que ofusca o olhar e o espírito. Mesmo sabendo que é para ir trabalhar, aquela vontade de não ir desvanece-se ao admirá-la. Como sempre, os que lá passam não lhe dão grande valor, olham para ela como o seu poiso de algumas horas. Como é o meu também. Mas há ali algo que não me deixa cansado de a ver. Não sei se a disposição dos telhados, se o grande rio que a acaricia, se o colorido dos edifícios centenários espalhados pelas colinas, se o fado entranhado nas vielas, ou se apenas aqueles monstrinhos amarelos nos carris. É única no seu trato, não só porque é nossa. Tem alma. A dos poetas que a percorrem em busca de inspiração; a dos pintores que lhe querem tirar o melhor retrato em pinceladas de cada esquina, de cada ruela triste mas cheia de vida; a alma daquele idoso que percorre o largo a matar o seu tempo até voltar às suas águas furtadas com vista para essa massa de água que é o seu espelho diário. A alma dos mais imberbes, daqueles que a preferem à luz da lua, aqueles que não deixam acabar a vida que tem de dia, embora com outros propósitos. A alma dos desalmados, dos que de tudo fogem, dos que deixaram de lutar, dos que enceram a calçada de cada avenida. Admiro-a todos os dias no meio do rio, na outra margem e mesmo por dentro das suas entranhas, mas confesso que é lá do alto que me dá mais gozo vê-la, inspirá-la em cada miradouro como se fosse o último fôlego ou à chegada de uma qualquer outra metrópole espalhada pelo mundo. É nesses momentos que realmente cheira bem…cheira a Lisboa.

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Responses

  1. É isto que me anima: ter nascido em Lisboa!
    Esta cidade, capital, tão típica, tão antiga, tão peculiar e ao mesmo tempo tão metropolitana. Saudosista? Talvez. Gostar de manter a traça que a destaca? Certamente. Mas a vida é mesmo assim.
    E os belos e artísticos desenhos da calçada portuguesa? E os candeeiros da rua (os antigos, claro, mas que já há poucos)? E os prédios revestidos a azulejo?
    Gostei do que disseste da minha terra, da nossa terra.
    Pena é, depois de tantos anos cá ter vivido, estar de passagem, tal como tu, para vir trabalhar.
    Estou farta de dizer: temos de dar uma volta por Lisboa, visitar sítios especiais (há tantos!), admirar o Tejo, fazer umas fotos para mais tarde recordar e acabar sabe-se lá… a cheirar e a deliciar-me com uns Pastéis de Belém!

  2. Vá lá! Façam as pazes!!!!


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