Publicado por: Paulo Fragoso | 13/03/2008

LUA

É uma miragem. Tudo aquilo que me parece tão perto e que está tão longe. Como a lua. Da minha janela todas as noites lhe toco. E como ela gosta. Acaricio-a e ela sorri para mim. De tão pequena que é, cabe na palma da minha mão. Por vezes encolhe-se. Talvez com cócegas. Faço de propósito. Outras vezes está mais reluzente. Está muito mais minha. Enche só para mim. E como eu gosto. Gostava que o tempo parasse para poder estar sempre com ela. A toda a hora. A todo o momento. Entristeço quando se vai. Anseio pelo seu regresso. São horas intermináveis de espera. Enquanto isso, preparo o discurso. Tomo nota do que lhe quero dizer. E assim vou pensando nela, com o contra da saudade. Saudade que se esvai aos primeiros tombos do sol. Busco-a em todos os recantos do céu. Todas as noites surge de um lugar diferente. Ela brinca comigo ao esconder-se. Foi a forma que encontrou de me chamar a atenção. E eu retribuo. Salto de janela em janela. E ela lá está. Sempre. Sorri só para mim. É só minha. Porque de certeza que mais ninguém repara que ela está ali em cima. É apenas um corpo. Nada mais. Porquê perder tempo e ganhar dores de pescoço com tal figura insignificante? Pensam os tolos. E ainda bem, digo eu. Assim, ela é só minha. Não tenho que a partilhar com mais ninguém. E que bem que me sinto em ser egoísta. Eu, que não sou nada.

Difíceis são, no entanto, as noites instáveis. Aquelas que, por muito que a procure, não a vejo. É por isso que o céu chora. São as suas lágrimas que deixo inundarem-me a face. Porque também sei que sente a minha falta. Embora, um e outro, saibamos que estamos no mesmo sítio. Sempre. Outras forças nos impedem o encontro. Aí é a angústia que toma posse de mim. O saber que ela ali está e nem sequer me pode ver. Imagino-a a sorrir, na esperança do reencontro ser em breve. Mas será que esse sorriso não poderá ir em busca de outro? Um outro qualquer que, por um infeliz acaso, a tenha chamado a atenção. É aí que me mordo de raiva. De ciúme. Talvez patético, mas real. É muito mais forte que eu. Inexplicável mesmo. Mas não posso e não devo pensar assim. Afinal, ela amanhã vai sorrir-me mais uma vez. Basta eu querer. Um sorriso. E outro. E outro. E outro. Ela não pode fugir. Eu bem que podia. Mas não posso. Ou não quero. Não sei. Ali estou eu preso, amarrado ao tempo, de uma forma talvez nada sadia. Mas eu gosto. Que mais posso esperar? Não sei. Talvez tudo. Talvez nada. Talvez, talvez, talvez. Incógnitas. Indecisões. Dúvidas. Tudo me assalta a cabeça. Retrato a minha vida como um longo livro de páginas brancas, que só pode começar a ser escrito no futuro. No amanhã. Porque é um outro dia que se espera não ser o último. E porque cada segundo que passa no relógio, é um passo para o outro lado. Um lado que ninguém quer. Mas que talvez me levasse a estar mais perto dela. Ela, outra vez. Porque é que tem de haver sempre um “ela”? Talvez porque o Homem não nasceu para estar sozinho. E “ela” poderá fazer a diferença.

Por agora, a minha lua satisfaz-me. Por agora. E daqui a pouco? Como vai ser? Ela vai continuar sempre lá, no seu cantinho. E eu? Será que vou conseguir ignorá-la? Tento pôr-me à prova, à espera de conclusões. Conclusões que não chegam. Ficam pelo caminho. Caminhos que a vida desenha, por vezes sem darmos por isso. Caminhos que nos tentam dar algum sentido mas que, muitas vezes, são acidentados. E nem sempre estamos predispostos a saltar por cima. É por isso que continuo à espera da noite. À espera dela. Talvez me dê uma resposta. Talvez me continue a dar algum sentido. Talvez a miragem desapareça pela noite dentro e passe a adorar…o sol.

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Responses

  1. Ontem à noite vi uma lua: redonda, branca, cheia de luz e ali me deixei ficar a contemplá-la, apesar do vento e do frio, com o rosto assente nas mãos, a pensar na vida. Só não sei se era a tua. De repente as nuvens taparam-na, quebrou-se o encanto, ainda tive esperança que fosse só por uns instantes mas não, desapareceu mesmo. Fiquei danada. O meu céu também começou a chorar. Fechei a janela com uma ponta de raiva. Coincidência, hein?

  2. nao o conheço…será…a sua voz,a sua foto e o seu trabalho nao fazem de mim conhecedora da sua pessoa…mas a sua escrita faz me perceber um pouco de si…as palavras traem nos …
    ha uma ano atras falava de solidao pois era isso mesmo que enchia os seus dias e especialmente as
    suas noites, o amor de pai por maior que seja nao preenche o vazio de uma ela…sim da lua… essa lua que parecia longe …tenho de lhe dizer que o pensamento á volta da lua fez me acreditar que os homems ainda se apaixonam…so os de H maiusculo.
    Acredito que neste tempo ela (claro a lua) ja lhe deu uma resposta…senao leia as entrelinhas e sabera que ja teve a resposta ha muito. As suas palavras dizem isso mesmo…quanto às suas lagrimas…desculpe,quando o ceu chora, espelha o que vai na alma…acredite a lua virá para ficar todas as noites. E nao é egoismo. È Paixao. Espero que a lua lhe ensine a amar e partilhe sa sua felicidade de ser pai bem como a lua e uma excelente mae.
    o espelho

  3. o Paulo è…não sei bem! Uma força da natureza,(acha que estou a exegerar?)como a sua lua. Ouço-o todos os dias e já tinha “sentido” que era uma pessoa especial, hoje vim pelo cheiro e que bem me cheirou esta sua lua, comovi-me, sabe? Quero acreditar que è mesmo o que penso de si , sencíel, muito sencíel e româtico, isto porque não acredito que hajam homens tão sencíeis, sei por experiêcia propria, mas há homens e homens!

  4. Meu “caro” Paulo … A lua priviligia as almas romanticas … sonhadoras…. ^_^
    Parabens … bjossss

  5. Há uma Estrela, a minha Estrela, a mais fácil de identificar, chama-se “Sirius” é sempre a mais brilhante é a que está mais perto da Lua. Obrigatóriamente sou “obrigada” a olhar para a Lua, sempre mutante, inconstante, na forma, na quietude. A minha estrela não, é sempre igual, sempre o mesmo brilho, mas o cosmos ditou que não mudaria a forma e o brilho, mas teria de seguir a Lua e hoje vim sentar-me na lua. Nunca está frio cá em cima e instalaram umas escadas rolantes para não nos cansarmos na subida. A Lua forrou-se de almofadas brilhantes e distribui mantas e bebidas aos visitantes. Negociei um lugar cativo com o patrocinador oficial e assim posso ir todas as noites, se quiser, se puder, se tiver tempo e vontade, eu que ando sempre a correr contra o tempo, contra a infelicidade, contra quem está contra mim.


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