Publicado por: Paulo Fragoso | 19/09/2016

Regresso às aulas

 

Véspera do grande dia. Esferográficas, lápis e borracha no estojo verde tropa, o único material novo este ano porque o dinheiro não abunda. Canetas de feltro, cadernos A4 de argolas, um para cada disciplina porque me organizo melhor do que com dossiês. Também levo a régua e o esquadro que está partido mas vai ter que aguentar, não tenho coragem de dizer à minha mãe que o Luis, o parvalhão da turma, o pisou de propósito quando o deixei cair. Estou aqui a pensar que era fixe o Chico levar a bola para aproveitarmos bem os minutos de intervalo até ao segundo toque. E até já estou com aquele friozinho na barriga só de pensar que vou cruzar de novo o olhar com o da Leonor. Aqueles olhos verdes incomodam-me, no bom sentido. E só espero que a stora Teresa continue a engraçar comigo que bem preciso para passar a Matemática. (Qualquer semelhança com a realidade em tempos idos, não é coincidência!.

Publicado por: Paulo Fragoso | 21/03/2016

Ser Pai

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Lembro-me como se fosse hoje, dos tempos em que comecei a ser homenzinho o suficiente para pensar no dia em que seria pai. As primeiras dúvidas, e sempre as que suscitam maiores “macaquinhos” na cabeça, pelo menos para mim, foi se alguma vez estaria à altura de tamanha responsabilidade e se teria estofo suficiente para aguentar tudo o que daí pudesse advir. Olhando para trás, posso dizer que foram dúvidas legítimas de quem tinha toda uma vida pela frente, uma vida ainda curta e, consequentemente, com pouca experiência da própria.

Mas tinha as bases, e quando assim é a confiança é outra. Nesse aspecto o meu pai vincou sempre muito bem a sua marca na minha existência, e criou condições para que um dia eu também fosse pai sem medo de não conseguir sê-lo. O seu exemplo como Pai e como Homem é, para mim, imaculado.

Fui pai pela primeira vez aos vinte cinco anos. Para a grande maioria, novo demais. Para mim o momento certo, e isso é que importa. Saber que aquela é a hora ideal para enfrentar tamanho desafio de ser progenitor de um ser que, para todo o sempre, mudará as nossas vidas de maneira tão positiva. Porque a partir daí deixamos de ser o que éramos, para passar a ser muito mais como pessoa, como humano.

Ser pai levou-me a focar as minhas atenções noutras direções, noutros estados de espírito, noutras experiências de vida. Desde que tive a felicidade de o ser que mais pareço um camaleão, no sentido em que passei a transformar-me em várias coisas ao mesmo tempo. De educador a companheiro, de confidente a professor, de inspirador a herói. De tudo um pouco disto e muito mais, se faz um pai que também volta a ser criança com as suas crianças. Ser pai é a maior bênção que um homem pode ter, a felicidade suprema. É encontrar o amor incondicional, o verdadeiro amor, aquele que nunca mas nunca mesmo morrerá.

Ser pai é também encontrar forças sobre-humanas para enfrentar as amarguras e os tropeções inerentes muitas vezes à vida. Quando algo ameaça um filho, uma doença por exemplo, em que pouco ou nada podemos fazer diretamente para reverter a situação, vamos encontrar forças onde não imaginávamos que tínhamos.

Aconteceu comigo. Nos primeiros meses de vida da minha filha houve dúvidas de que algo não estava bem. Foram semanas, meses até ter a confirmação absoluta de que afinal tudo não passara de um susto. Mas foram semanas que mais pareceram anos e anos. A angústia estava cá mas a força que um pai tem, ajuda e de que maneira. Não esquecendo nunca a mãe, com o seu papel preponderante.

Para quem quer ser pai há algo que aconselho vivamente: a não confundir pai com melhor amigo. Aquela coisa de que o pai é o melhor amigo do seu filho não é nem deve ser assim. Amigos não exigem, não cobram nada. Um pai precisa de o fazer, de exigir e de cobrar. Faz parte da educação. O pai claro que é amigo, mas o principal é ser Pai. E esse há só um, aquele que está dentro de casa. Os amigos são os de fora e são também necessários para o crescimento e desenvolvimento dos nossos filhos. Aí encontrarão o seu melhor amigo, porque o Pai, esse deverá ser sempre o Paizão!

 

Publicado por: Paulo Fragoso | 14/12/2015

Carta ao Pai Natal

pai natalQuerido Pai Natal, sabes que nunca fui pedinchão. Aliás, podes confirmar nos teus arquivos de que esta é a primeira vez que te escrevo. E dirijo-me a ti para te pedir apenas uma única coisa: deixa-me ver! Deixa-me ver todas as crianças do mundo com um sorriso. Deixa-me ver homens sem vontade de guerrear e com pão nas mãos para dar. Deixa-me ver todos com um teto e com um emprego em que não sejam explorados. Deixa-me ver os políticos a deixar a demagogia e a olharem com olhos de ver para a destruição em que se encontra o nosso planeta. Deixa-me ver crescer escolas e hospitais mas não me deixes ver idosos sós e abandonados. Deixa-me ver o meu Portugal chegar-se à frente da lista dos países mais prósperos e felizes e com os habitantes mais risonhos do planeta. Deixa-me ver ser Natal todos os dias para que ninguém ande de costas voltadas o resto do ano. Deixa-me ver se me consegues deixar ver.

Publicado por: Paulo Fragoso | 02/07/2015

Pressa crónica

Escrevo estas linhas com alguma pressa. Não que esteja atrasado para algum compromisso, ou aflito para alguma coisa, mas estou com pressa. Poderia ser porque me disseram à última da hora que era eu a escrever esta crónica e não ter um tema, mas também não. Assunto é o que não falta. Basta olhar em nosso redor que se arranja do que falar. Apenas dou por mim com pressa. O que parece ser algo muito normal nos dias que correm. Acredito que até tu estás com pressa, quanto mais não seja para chegar ao fim destas linhas. Sofremos de “Pressa Crónica”. É pressa para sair de manhã, pressa para chegar ao trabalho, pressa no trânsito, para despachar serviço, pressa para sair do trabalho, pressa que chegue a sexta feira, que cheguem as férias. As coisas feitas à pressa nunca saem bem e isso aplica-se às nossas vidas. Com pressa, não a saboreamos. Vivemos à pressa e é assim que a vida voa, à pressa.pressa

Publicado por: Paulo Fragoso | 03/06/2015

Prémios

Nada melhor do que reunir os amigos à mesa, aqueles que são, para além de verdadeiros, de bom garfo. Juntei há dias os poucos, mas bons, que tenho com estas qualidades. Todos com a sua vida estabilizada, quer em termos familiares, quer profissionais. Mas isso não significa que estejam satisfeitos e que tudo corra bem. Somos uns inconformados por natureza. Guardo para mim as “queixas” familiares que ouvi, mas não posso deixar de falar da parte profissional. De todos eles ouvi lamentos de que, apesar de serem trabalhadores cumpridores, zelosos, preocupados não só com o seu trabalho como com a sua empresa, sentiam-se decepcionados pelo tratamento que lhes era dado pelos patrões. Todos dizem que não vale a pena ser assim porque a incompetência, a preguiça e até a estupidez é que são premiadas.Todos exceto o que trabalha numa multinacional.

Publicado por: Paulo Fragoso | 26/05/2015

“Porquê eu?”

“Porquê eu?” há de ser a pergunta que para sempre rodará na minha cabeça. Estás cheio de razão. Porquê tu? Também me interrogo a cada minuto, a cada instante em que penso em ti, naquilo que, em tempos, já sofreste e que não merecias voltar a passar. Bateu-me cá dentro o teu desabafo, como se de uma bigorna a entrar-me pelo peito se tratasse. Não foi a forma como te questionaste, não foi o ar com que o disseste, terno e diluído, mas sim a própria da dúvida em si. “Porquê eu?”. Já tiveste a tua dose, e não foi pouca nem fácil de digerir. Contra tudo e contra todos, inclusive dos senhores que têm a ciência nas mãos e na cabeça, conseguiste vencer o “bicho” uma vez. Vais conseguir outra vez. E aí vais perceber que és um “escolhido” por alguma razão que a ciência não sabe explicar, mas que eu gostava de saber, de alguma “entidade” competente que esteja constantemente a apontar para ti. Não mereces! Não, não, não!!!!!!!! Porque és uma pessoa adorável, tímida e gentil, amigo do amigo do amigo, que me enche de orgulho pela educação e valores que me deste e que eu tento passar aos meus, não tão bem como tu, garanto-te. Porque és único, és o original. E todos sabemos que não há cópia que bata o original. És aquilo a que se chama de boa pessoa. E com tanta pessoa má por aí espalhada, parece que só aos bons é que acontece destas coisas. Mas tal como és minha fonte inspiradora, guerreiro e lutador como nenhum outro que conheço, também eu de tudo faço para que os meus, que também são teus, sigam o exemplo que de ti vem e há de continuar a vir. “Porquê eu?” será uma pergunta que terá a resposta merecida a seu tempo. Uma resposta que surgirá com o sorriso mais terno e doce que eu conheço.

Publicado por: Paulo Fragoso | 15/10/2014

Sem tempo.

Parar o tempo era o que eu queria. Não para voltar atrás, nem para não seguir em frente. Apenas parar para apreciar o que já vivi. Aquilo que conquistei, o que chorei. O que perdi, o que li. O que a vida me ensinou, quem me faltou. Admirar todo e qualquer segundo que já gastei. Sugar o sorriso dos que amo e amei.

Porque o rio corre lá em baixo e as nuvens pairam sobre nós, tal desejo não é possível. O tempo gasta-se. E desgasta. Seja uma pedra, um ser ou um simples momento. E lá vai ele como se não houvesse amanhã.

Publicado por: Paulo Fragoso | 23/01/2014

Tenho medo.

Até já tenho medo. Um simples gesto para saber das pessoas que me são queridas, pode tornar-se em algo medonho, triste, terrível e doloroso. Porque isto não se endireita. Sim, até já tenho medo. Gosto de saber daqueles de quem eu gosto, dos que me dizem muito, daqueles de quem eu tenho saudades, dos que me confortam quando eu preciso, dos que estão lá mesmo estando longe da vista. São aqueles que estão no coração.E gosto de lhes ouvir a voz, já que não tenho a presença. Mas até já tenho medo. Um acto que em tempos era de alegria, risota de um lado e de outro, de troca de palavras animadas e suculentas, é agora um acto temeroso. Até já tenho medo. Já penso duas vezes antes de pegar no telefone e ligar a alguém que me quer bem, tal como eu quero ao outro, porque sei que corro um sério risco. As palavras balbuciadas já não são feitas de açúcar, já não se ouve um riso, apenas um sorriso de somenos aqui e acolá porque não dá para mais. Por muito que se queira, por muito que haja um esforço para ser mais que um simples sorriso, não dá. Até já tenho medo. E por muito que eu queira ser a parte positiva da conversa, não consigo. São cada vez mais os que me dão a notícia: “fiquei sem trabalho!”, “fui pra rua!”, “despediram-me!”. Desde mais novos a menos jovens, ninguém está imune à epidemia que se alastra a olhos vistos. E ninguém faz nada!!!!! Até já tenho medo. De ser eu o próximo. Quem conseguirá dizer que se sente seguro, vendo o que se passa à nossa volta? Que palavras tenho que ter para os que sentem na pele a doença deste país? E aos meus, que são o futuro disto, já não lhes consigo dizer para não passarem a fronteira. Porque não vejo outra solução. Até já tenho medo. De acordar e não ver uma saída. Porque não vejo mesmo.

Publicado por: Paulo Fragoso | 06/01/2014

D. Esperança! Conheces?

A D. Esperança era uma daquelas vizinhas que queria entrar em todas as casas da redondeza. Não tinha nada de cusca, apenas gostava de dar uma palavrinha à vizinhança, sempre com um sorriso nos lábios e uma missão. Da sua boca não se ouvia uma palavra menos boa, uma crítica e muito menos um insulto. Não estava fadada para essas coisas. Os seus olhos irradiavam uma luz como que a indicar o caminho a cada um. Era como que um dom. Muitas vezes incompreendida, eram muitos os que lhe fechavam a porta. Mas mesmo assim, D. Esperança não desistia e no dia seguinte lá voltava ela outra vez. Não descansava enquanto não conseguisse que nela confiassem. Uns alegavam que bastava ter Fé. Só que a Fé é uma Graça. A esperança depende de cada um. Sem ela, tudo fica ainda mais difícil.

Confie também e deixe a D. Esperança entrar na sua vida, porque é disso que precisamos para 2014: Esperança! Feliz Ano Novo.

Publicado por: Paulo Fragoso | 17/10/2013

Crónica desanimada

Estou a escrever estas linhas num estado de desânimo. Cheguei à conclusão que esgotei a minha fonte de ânimo. E não é de ânimo leve que estou digo isto. A maioria acha que lá por ter uma profissão que me expõe publicamente tenho que ser diferente, tenho de fingir que não sou tão de carne e osso como qualquer outro que me ouve ou me lê. Mas as coisas não são bem assim. Também tenho os meus momentos fracos, os meus dissabores, as minhas tristezas, os meus desalentos, a minha falta de esperança. Porque não penso só em mim. Aliás, porque penso mais nos outros, naqueles que me são próximos, naqueles que eu vejo cabisbaixos no presente, e naqueles que não vejo com futuro. Eu tento, palavra que tento ser optimista e esperançoso. Só que há horas e horas, momentos e momentos. Agora, nesta hora, esta crónica é desanimada. Tenho esperança que a que escreva outro dia seja bem diferente, para melhor.

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